Em Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas (2003), filme dirigido por Tim Burton e estrelado por Ewan McGregor e Albert Finney, Edward Bloom é um homem conhecido por contar histórias extraordinárias sobre a própria vida.
Ao longo dos anos, seu filho Will cresce ouvindo relatos sobre gigantes, bruxas e aventuras quase impossíveis. Mas, depois de escutar tantas vezes as mesmas histórias, começa a questionar o que realmente aconteceu e o que é fruto da imaginação do pai.
O filme parte de uma ideia tão simples quanto bonita: as histórias que contamos também são uma maneira de deixar um pouco de nós nas pessoas que amamos.
Na sua família, tem alguém que conta histórias que todo mundo já sabe de cor?
Você é do tipo que, se chega mais cedo que a pessoa com quem marcou no restaurante, faz questão de mostrar que está esperando alguém, só para, em hipótese alguma, passar pela cabeça de ninguém que você está sozinho?
Pois bem, eu fui a criança que entrava em desespero quando, em um domingo no shopping, minha mãe pedia para eu guardar uma mesa na praça de alimentação enquanto ela pegava o pedido.
Eu entrava em pânico, e cada segundo de espera parecia uma eternidade.
Hoje, eu sou a adulta que prefere chegar um dia antes em uma viagem de grupo para a Itália, só para aproveitar um dia sozinha.
Eu não sei o que aconteceu nesse meio-tempo, mas o fato é que aprendi a gostar de mim mesma e a conviver comigo.
Nessa mesma viagem à Itália, teve uma noite em que eu estava passeando por Roma quando encontrei um grupo de brasileiros. Ao contar que estava sozinha, um dos rapazes disse: “Estar sozinho assim pode ser chique ou pode ser triste.”
Eu nunca tinha visto essas duas palavras como antagônicas, mas aquilo me fez refletir muito.
Em um mundo onde tudo é para dois ou mais — pizzas, garrafas de vinho, pacotes de pão, litros de leite… —, estar sozinho é quase um ato de resistência. (Eu acho que vou morrer de felicidade no dia em que inventarem meio pacote de pão de forma).
E é mesmo. E pode ser um ato libertador também.
(Imagem: Pinterest)
Um dia para fazer o que você tiver vontade de fazer: almoçar café da manhã, andar por horas à beira da praia, entrar em toda lojinha que chamar a atenção, voltar para o hotel no meio da tarde só para tirar um cochilo…
Não ter que se preocupar se o outro está gostando, se o outro quer ir embora ou se gostou da escolha do restaurante.
O ponto é que nós, especialmente as mulheres, passamos boa parte do tempo fazendo tudo funcionar, fazendo todo mundo ficar satisfeito e confortável.
Eu, pelo menos, sou aquele tipo de pessoa capaz de comprar seis opções de bebida para um lanche na minha casa, só para garantir que vai ter opção para todo mundo. E fazer coisas só para você, comprar o que você gosta de beber, é quase como um descanso.
“Eu nunca dei para mim duas semanas de descanso para pensar em mim.”
Elizabeth Gilbert, de Comer, Rezar e Amar, desabafa essa frase para uma amiga após terminar um longo relacionamento.
Será que é preciso um grande rompimento ou uma decepção para a gente ter coragem de olhar para si mesma?
(Imagem: Pinterest)
Eu prefiro acreditar que não.
Que todo dia é dia de se levar para tomar um sorvete, ver um filme que você ama no cinema e comprar a pipoca do jeito que você gosta, ou de ler em uma praça, sem ninguém para te apressar.
E, quem sabe, ao se relacionar consigo mesma, você não descubra o tipo de companhia de que gosta?
“Há momentos em que temos de procurar o tipo de cura e paz que só podem vir da solidão.”
Elizabeth Gilbert, de Comer, Rezar e Amar.
AUTORA
Marcela Freire
Marcela é mineira, morou no Rio, morou em São Paulo e hoje está de volta a BH. Passou pelo teatro, pelo cinema e parou no marketing, onde trabalha com conteúdo há mais de cinco anos. É host do podcast "Surtei, mas tô bem!", sobre os surtos de quem já é adulto, mas ainda não se acostumou. Mora sozinha com dois gatos e, se tudo der errado, pelo menos vira episódio.
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Raimundão era daqueles homens que podiam contar a mesma história dez vezes e, ainda assim, fazer todo mundo rir na décima primeira.
Nas reuniões de família, bastava começar uma de suas prosas para que as pessoas se aproximassem. Algumas queriam saber o final; outras, já conheciam a história de cor, mas ficavam para ouvir mesmo assim.
Seu nome era Raimundo Brandão, mas pouca gente o chamava assim. Na região onde vivia, era conhecido como Raimundão. Não pelo tamanho, mas pelo coração, como gosta de dizer seu filho caçula, João Pedro.
Nascido em uma família de 14 filhos, saiu de casa aos 18 anos para tentar a vida em São Paulo. Passou 11 anos por lá, até que o amor o trouxe de volta. Casou-se, teve três filhos e construiu uma história de quase 38 anos ao lado da esposa.
Era conhecido pela generosidade e pela disposição para ajudar quem precisasse. Mas, para João Pedro, era mais do que o pai que todo mundo conhecia.
Era seu melhor amigo.
Os dois conversavam sobre futebol, Fórmula 1 e qualquer notícia que aparecesse. Jogavam dominó e baralho, embora Raimundão tivesse uma dificuldade particular em admitir as derrotas.
Mesmo quando perdia uma partida sem marcar um único ponto, garantia que estava deixando o filho ganhar.
Também tinham suas divergências. Raimundão era palmeirense; João Pedro, flamenguista.
O pai tentou convencê-lo a torcer pelo Palmeiras, mas, na Caiçara, onde cresceram, quase todos os primos eram flamenguistas. Não teve jeito.
Raimundão não conseguiu mudar o time do filho, mas transmitiu a ele a paixão pelo futebol — e muitas outras coisas.
João Pedro cresceu ouvindo seus conselhos, especialmente sobre a importância de terminar a faculdade, trabalhar com responsabilidade e cuidar da saúde.
Hoje, às vezes se percebe usando expressões e argumentos do pai em conversas com outras pessoas.
Havia, porém, uma coisa que João Pedro tinha medo de esquecer.
Raimundão conhecia a história da família como ninguém. Lembrava dos parentes, das origens e de acontecimentos que atravessavam gerações.
O filho vivia pedindo que ele escrevesse tudo em um caderno, para que aquelas lembranças não se perdessem... Mas o caderno foi ficando para depois.
Havia sempre outra conversa, outra reunião de família, outra oportunidade de ouvir Raimundão contar tudo de novo.
Uma semana antes do aniversário de João Pedro, seu pai já estava preocupado com os preparativos.
Tinha comprado bebidas, mandava mensagens perguntando o que faltava e queria garantir que tudo saísse do melhor jeito possível.
Estava mais empolgado que o próprio aniversariante.
A festa aconteceria em uma barraca que os dois estavam construindo perto de um lago conhecido como Correguinho, próximo à casa onde Raimundão nasceu.
Seria o primeiro encontro naquele espaço. A inauguração oficial estava planejada para o Dia dos Pais, algumas semanas depois.
João Pedro se lembra daquela comemoração como uma das melhores de sua vida, principalmente pela alegria de ver o pai tão envolvido em cada detalhe.
No sábado, 8 de agosto de 2026, Raimundão faleceu.
No dia seguinte, justamente no Dia dos Pais, a família se reuniu. Mas não para inaugurar a barraca, como havia planejado. Reuniu-se para se despedir dele.
De repente, os planos de João Pedro com o pai se transformaram em coisas que não aconteceriam.
Queria conhecer os lugares de São Paulo onde Raimundão vivera na juventude, assistir a um jogo no estádio e ir a um Grande Prêmio de Fórmula 1.
Queria, sobretudo, tê-lo ao seu lado na formatura da faculdade, prevista para o ano seguinte. Afinal, o pai havia sido uma das pessoas que mais insistiram para que concluísse os estudos.
Mas a saudade também apareceu nas coisas pequenas.
Em assistir a uma partida de futebol sem ter com quem trocar provocações. Em encontrar uma notícia interessante e não poder perguntar o que o pai achava.
E nas músicas.
Raimundão vivia cantarolando pela casa. Não cantava particularmente bem, segundo João Pedro, mas cantava com vontade.
Havia uma canção de que gostava especialmente: Quero Ver Você Feliz, de Paulo Sérgio.
Ele costumava ouvi-la pensando no próprio pai, que já havia falecido. Na época, João Pedro sabia que aquela música carregava uma saudade, mas ainda não compreendia inteiramente seu significado.
Hoje, é ele quem a escuta sentindo falta do pai.
E há também a saudade de tudo o que ainda poderiam ter vivido juntos.
Raimundão sonhava em ser avô. João Pedro imagina como teria sido vê-lo com seus filhos nos braços, contando as mesmas histórias e lorotas que marcaram sua infância.
Eles não terão a oportunidade de conhecê-lo, mas João Pedro quer que cresçam sabendo quem foi o avô.
Foi também por isso que decidiu escrever para o the news cult.
Sempre teve vontade de compartilhar uma história de amor, mas nunca havia encontrado um motivo forte o suficiente para parar e escrever.
Dessa vez, encontrou.
Queria que mais pessoas conhecessem o homem que teve a sorte de chamar de pai.
Algumas histórias talvez tenham se perdido com Raimundão; outras continuam aparecendo nas conversas de família, nas músicas que ele cantava e nas expressões que João Pedro repete sem perceber.
Agora, também nestas páginas. Há quem diga que "uma pessoa permanece viva enquanto houver alguém para contar sua história".
E, pelo visto, Raimundão ainda tem muita história pela frente.
"Quando estou só reconheço Se por momentos me esqueço Que existo entre outros que são Como eu sós, salvo que estão Alheados desde o começo.
E se sinto quanto estou Verdadeiramente só, Sinto-me livre mas triste. Vou livre para onde vou, Mas onde vou nada existe.
Creio contudo que a vida Devidamente entendida É toda assim, toda assim. Por isso passo por mim Como por coisa esquecida."
— Fernando Pessoa
Às vezes, estar sozinho é uma escolha. Em outras, é uma condição que a vida nos impõe. E, entre a liberdade de aproveitar a própria companhia e a tristeza de sentir falta de alguém, existe uma infinidade de maneiras de experimentar a solidão.
EM CARTAZ
Nos cinemas ou no conforto do seu sofá
(Imagem: Divulgação)
O doloroso caminho em busca do perdão chega aos cinemas no dia 5 de novembro.
Em Vicentina Pede Desculpas, o público acompanha a comovente jornada de uma mãe interpretada por Rejane Faria, cuja vida desmorona após seu filho, o motorista de ônibus Wesley (Renato Novaes), perder o controle do veículo e cair de um viaduto, vitimando dezenas de pessoas. Diante das acusações da imprensa, ela decide procurar as famílias dos passageiros em um ato desesperado de empatia.
Dirigido por Gabriel Martins (Marte Um), o longa-metragem constrói uma narrativa densa e profunda sobre a dor da perda e a busca pela redenção em meio à rejeição pública. Aclamada internacionalmente, a produção fez sua estreia mundial na prestigiada seção Plataforma do Festival de Toronto e integrou a Seleção Oficial do Festival de San Sebastián de 2026, firmando-se como um dos dramas brasileiros mais impactantes do ano.
Confira os principais lançamentos da semana:
Stick — 04 de novembro, na Apple TV
Klara E O Sol — 05 de novembro, nos cinemas
Cavalo Selvagem Nove — 05 de novembro, nos cinemas
Ana, En Passant — 05 de novembro, nos cinemas
Campus Drivers — 06 de novembro, no Prime Video
E você, assistiu a qual dos lançamentos que mencionamos na última edição?
Na escola, aprendemos sobre o Egito, Roma, a Idade Média, as grandes navegações e as guerras mundiais. Mas, muitas vezes, tudo parece acontecer em blocos separados.
Só que a história nunca aconteceu assim.
Enquanto impérios surgiam, outros desapareciam. Uma guerra mudava fronteiras. Uma invenção transformava sociedades. E cada acontecimento ajudava a construir o mundo que conhecemos hoje.
Pensando nisso, criamos o livro A História do Mundo em Linha do Tempo, que reúne os principais acontecimentos da humanidade, do Big Bang aos dias atuais, em uma única sequência cronológica, visual e ilustrada.
A ideia é simples: não decorar datas, mas conectar os pontos.
Seu hub abrangente de curadoria cultural e comportamento. Uma lente para entender o mundo e as conexões humanas através do amor, da arte, do cinema, da literatura, das tendências de lifestyle e da vida digital.
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