Freezer Talks
Estudo revela que 71% veem alimentos como expressão cultural e pessoal.
Por Redação

Sua nova Chanel vem dentro de uma sacola de supermercado. Brincadeiras à parte, esqueça a Hermès ou o Rolex por um instante. O novo símbolo de status pode estar na sua lista de compras.
Uma lata de refrigerante da Poppi, uma conserva de peixe da Fishwife, um azeite da Graza ou uma barra de proteína da David. Itens que, até pouco tempo atrás, seriam apenas mais alguns nas prateleiras agora ocupam um espaço tradicionalmente associado à moda: o de comunicar quem você é, o que valoriza e a qual universo cultural pertence.
Segundo um estudo da Highsnobiety divulgado pelo Taste Tomorrow, 71% dos consumidores entrevistados enxergam alimentos e bebidas como formas de expressão pessoal e capital cultural.
Capital cultural te lembrou aquela aula de sociologia da escola, né? O conceito, desenvolvido pelo sociólogo francês Pierre Bourdieu, explica como conhecimento, hábitos, educação e repertório funcionam como uma espécie de moeda social, capaz de gerar prestígio e distinção.
E os números do estudo ajudam a entender esse movimento:
75% consideram que determinadas marcas alimentícias fazem parte de um universo cultural maior.
71% já compraram alimentos ou bebidas principalmente pela aparência.
67% associam produtos de wellness tanto a estilo e status quanto à saúde.
74% acreditam que produtos de wellness sinalizam relevância cultural.
O nome disso? Pantry Prestige, ou prestígio da despensa.
Na prática, a lógica é parecida com a de montar um guarda-roupa. Só que, em vez de escolher a bolsa, o tênis ou a camiseta que melhor traduzem sua personalidade, você faz essa curadoria com aquilo que coloca na geladeira.
Não se trata necessariamente de consumir o produto mais caro, mas de saber escolher o certo.
Como chegamos até aqui?
Para entender por que um azeite virou objeto de desejo, vamos dar um zoom out.
Durante décadas, o luxo esteve associado à posse de bens de alto valor. Carros, relógios e bolsas funcionavam como demonstrações visíveis de riqueza e pertencimento.
Com o aumento do custo de vida e a dificuldade de acesso a grandes compras, parte do público passou a encontrar outras maneiras de experimentar a sofisticação.
É aqui que entra um conceito conhecido das marketing girlies: o lipstick effect, ou efeito batom.

A ideia é que, em momentos de restrição econômica, as pessoas tendem a substituir gastos elevados por pequenos luxos que oferecem uma sensação de recompensa.
Se uma bolsa de grife custa milhares de dólares, um matcha de US$ 10, um azeite premium ou um smoothie do Erewhon permitem participar de um universo aspiracional por uma fração do preço.
Um levantamento da McKinsey destaca os produtos de supermercado entre as categorias em que integrantes da geração Z e millennials pretendem gastar mais para se permitir pequenos luxos.
Mas o desejo vai além da mercadoria. Está na embalagem, na história da marca, no ponto de venda e, principalmente, na mensagem transmitida por aquela escolha.
Um exemplo é a David Bars, fabricante de barras proteicas que combina apelo nutricional, design minimalista e posicionamento premium. Segundo o The New York Times, mais de 40 mil pessoas participaram de uma lista de espera para seu lançamento, em 2024.
Quando uma barra de proteína gera expectativa e escassez, começa a se comportar como um lançamento de moda.
Fora que o supermercado virou um hotspot. Em Los Angeles, o Erewhon talvez seja o caso mais conhecido dessa transformação.

A rede conseguiu converter uma atividade cotidiana em uma experiência aspiracional. Seus smoothies em colaboração com celebridades como Hailey Bieber, Bella Hadid e Sydney Sweeney viraram objetos de desejo nas redes sociais. Já a parceria com a marca esportiva On conectou tênis, clubes de corrida e bebidas de recuperação.
Mais do que comida, o Erewhon oferece um estilo de vida que mistura saúde, estética e movimento.
E não está sozinho.
Em Nova York, o Happier Grocery e o Meadow Lane apresentam diferentes versões desse varejo sofisticado. Na Flórida, o Nude Market aposta em arquitetura, curadoria e espaços de convivência, enquanto o L'Epicerie Supply explora a integração entre gastronomia e hospitalidade.
Antes, você ia ao mercado porque precisava comprar alguma coisa. Agora, determinados estabelecimentos se tornaram destinos por si só.
E a indústria fashion percebeu isso.
Em setembro de 2026, o Business of Fashion dedicou um episódio do podcast The Debrief à nova obsessão do setor pelos supermercados.
Entre os exemplos estão a Nanushka, que se associou ao Happier Grocery para levar sua proposta de hospitalidade a Nova York, e a designer britânica Anya Hindmarch, que transformou sacolas da rede Waitrose em acessórios desejáveis.
Até a Prada Beauty apostou na estética de um mercado para criar uma experiência física de marca.
O que antes parecia uma combinação improvável começa a fazer sentido.
Uma coisa que mudou tudo? Ozempiconomy. Esse é o termo usado para descrever os impactos econômicos e comportamentais da popularização de medicamentos como Ozempic, Wegovy e Mounjaro.
E o efeito vai muito além da balança.
Indicadores associados a uma análise do Morgan Stanley apontam que usuários desses tratamentos podem reduzir em cerca de 9% seus gastos com supermercados e restaurantes.Para a indústria alimentícia, surge um desafio: como vender para quem come menos, mas continua interessado em saúde, conveniência e experiências?
É aqui que a Ozempiconomy encontra o Pantry Prestige.
A valorização de alimentos funcionais, opções ricas em proteínas e itens premium sugere uma possível migração da quantidade para a qualidade. Uma bebida enriquecida ou um snack proteico, por exemplo, pode atender tanto a uma necessidade nutricional quanto a uma preferência pessoal.
E a moda entra onde?
No guarda-roupa, os reflexos também começam a aparecer.
Indicadores do setor apontam um crescimento de 12% nas buscas por numerações menores de roupas, movimento que pode estar relacionado à expansão do uso de medicamentos para emagrecimento.
Para as grifes, isso pode representar alterações na demanda por tamanhos e modelagens. Já no mercado de beleza, surgem oportunidades para cosméticos e procedimentos voltados às mudanças na aparência decorrentes da perda de peso.
Não por acaso, expressões como Ozempic face ganharam espaço nas redes sociais. O termo descreve a redução de volume facial que pode acompanhar um emagrecimento acentuado, independentemente do método utilizado.
Outro aspecto interessante está no marketing farmacêutico. Uma interpretação sobre a criação do nome Ozempic associa a palavra aos termos ingleses peak (pico) e olympic (olímpico), que remetem à conquista e à vitória, além de referência à semaglutida, seu princípio ativo.
A própria expressão caneta emagrecedora também influencia a percepção do tratamento. Embora a aplicação continue sendo injetável, chamá-la de caneta, em vez de injeção, pode reduzir a resistência inicial de alguns pacientes.
É um exemplo de como linguagem, design e experiência de uso podem contribuir para a aceitação de uma inovação.
Durante muito tempo, a alimentação saudável esteve associada principalmente à nutrição. Hoje, para determinados públicos, ela também comunica disciplina, conhecimento e estilo de vida. Cuidar da saúde continua sendo uma preocupação individual, mas os produtos associados a esse universo também passaram a carregar significados sociais.
Tá, mas o que isso significa? Vamos olhar além das compras.
O valor não está necessariamente em possuir algo inacessível, mas em demonstrar que você sabe o que vale a pena consumir.
É a diferença entre ter dinheiro para comprar qualquer azeite e ter repertório para escolher aquele que virou referência dentro de uma comunidade.
Essa lógica conversa com o chamado quiet luxury, em que a sofisticação aparece de maneira mais discreta, sem depender de logotipos ou demonstrações explícitas de riqueza.
Para as empresas, surge a oportunidade de transformar mercadorias comuns em referências culturais, combinando identidade visual, narrativa e comunidade.
Nesse cenário, o supermercado deixa de ser apenas um ponto de venda e se torna um espaço de descoberta, convivência e construção de marca.
A Ozempiconomy acrescenta uma dimensão a essa discussão: enquanto os medicamentos podem diminuir o volume de alimentos ingeridos, o Pantry Prestige sugere que nossas decisões alimentares continuam ganhando importância simbólica. A comida não está substituindo a moda, só está participando de uma função que ela desempenha há décadas: expressar identidade e pertencimento.
A diferença é que, antes, você precisava abrir o guarda-roupa para mostrar seu estilo. Agora, a geladeira também pode ter o mesmo papel.
Compartilhe

