| | | | | hamnet | o resto é silêncio. | | |
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| | | | | FIRST THINGS FIRST | Qual é o valor da arte? |  | (Imagem: Hamnet) |
| Com direção de Chloé Zhao e produção de Steven Spielberg, Hamnet: A Vida Antes de Hamlet se apresenta como uma experiência sensorial capaz de fazer o espectador esquecer, ainda que por algumas horas, o mundo exterior. | No centro da narrativa está William Shakespeare, interpretado por Paul Mescal, e sua mulher Agnes, vivida de forma quase sobrenatural por Jessie Buckley. | Os dois se conhecem sob o signo do amor proibido, com a intensidade típica das tragédias, mas o que o filme propõe vai muito além da paixão inicial. | | Em vez do gênio consagrado, o filme acompanha um homem comum, inserido em uma rotina familiar feita de afeto, trabalho e fragilidade. A narrativa se constrói nesse cotidiano, com atenção especial à figura de Agnes. | O grande eixo do longa-metragem está no diálogo com a história real: sabe-se que Shakespeare teve um filho chamado Hamnet e que, anos depois, escreveu Hamlet, uma de suas peças mais célebres. |
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| Ainda assim, o filme não tenta explicar essa obra por meio de uma causalidade direta. A intenção parece ser outra: mostrar como grandes criações nascem, muitas vezes, de experiências íntimas, invisíveis e silenciosas. | Hamnet não é um filme sobre a peça Hamlet, mas sobre o silêncio que a precede. |
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| E assim como Shakespeare escreveu Hamlet tentando entender um sentimento que não cabia em palavras, quem assistiu ao filme no cinema parece ter entendido junto: no silêncio, no choro e na emoção compartilhada. | | A arte cura não porque conserta, mas porque acolhe e cria um espaço no qual a dor pode existir sem precisar ser útil, o luto não precisa virar aprendizado e o amor não precisa gerar retorno. | Em um mundo onde tudo precisa ter utilidade, é bom lembrar que são justamente as coisas que não servem para nada que dão sentido à vida. Como já dizia Nietzsche: “temos a arte para não morrer da verdade”. |
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| | | | | APRESENTADO POR SOTO | A beleza de se apaixonar por algo novo | Tem um momento bonito em toda paixão: quando percebemos que queremos aprender. Aprender o nome das coisas, o ritmo, o movimento. É como se apaixonar por um novo hobby, por exemplo: primeiro a curiosidade, depois a vontade de mergulhar de cabeça. | No kitesurf, isso significa entender o vento, abraçar o mar… E esse novo esporte pode transformar seu jeito de estar no mundo: você passa a escolher destinos por experiências, estar mais presente e sentir a natureza de um jeito diferente. |  | (Na imagem: Kamila Rodrigues. Foto: Rochelle Vaz) |
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| | | | | EDITOR’S PICK | Sunday’s Love 🏹 |  | (Imagem: Tumblr) |
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| | | | | BASEADO EM UMA HISTÓRIA REAL | O mundo é pequeno demais para ela |  | (Imagem: VSCO) |
| Helena sempre teve a sensação de que o mundo era estreito demais para caber dentro dela. Não por arrogância, mas por excesso de ideias, sensações e amor. | Tudo nela vinha em volume alto: as cores, os afetos, as crises e os silêncios. Era o tipo de mulher que não atravessava os lugares — colidia com eles. | Miguel a conheceu jovem, quando ainda acreditava que a vida precisava de ordem para funcionar. | Ele gostava de listas, horários e finais compreensíveis. Ela gostava do que escapava. Do que não cabia. Do que não tinha nome.
| Talvez por isso tenham se reconhecido tão rápido: não como opostos, mas como duas formas diferentes de tentar sobreviver ao mesmo caos. | Eles se apaixonaram no verão e casaram-se três meses depois — e não teve festa grande. Helena usou um vestido simples, que ela mesma pintou. Miguel achou que aquele era o gesto mais honesto que já tinha visto. | Foram morar perto do mar, em uma casa pequena, com as paredes descascadas e os livros empilhados no chão. Não tinham muito, mas possuíam o que precisavam para serem felizes: amor. |
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| Helena pintava compulsivamente. Pintava quando estava feliz, quando estava furiosa e quando não conseguia explicar o que sentia. Miguel escrevia, não para publicar, mas para entender. | | Helena nunca foi fácil. Às vezes, era expansiva demais, falava rápido e queria tudo ao mesmo tempo. Em outros dias, o mundo pesava tanto que ela mal conseguia sair da cama. | Os médicos davam nomes, os amigos davam conselhos, mas Miguel ficava. Não por heroísmo, mas por escolha. Ele entendeu cedo que amar Helena significava aceitar que a vida com ela não seria linear; seria intensa. | | Conversavam sobre Van Gogh e Machado de Assis. Miguel achava que Capitu havia traído Bentinho; Helena achava que Bentinho era doido. A arte não os salvava, mas os acompanhava. | Passaram essa paixão para os filhos, que, posteriormente, passaram para os netos. Para Maria Tereza, almoçar na casa dos avós era sinônimo de comer bem — e aprender um pouco sobre a vida. | Todos achavam que Helena partiria antes de Miguel, mas foi ele quem adoeceu primeiro. Um baque para a família inteira. Era Miguel quem colocava tudo em ordem — e sempre com amor. |
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| Por incrível que pareça, quando ele começou a ficar enfermo, foi ela que ficou: organizou os remédios, leu para ele quando sua visão falhou e segurou sua mão nos dias em que o mundo parecia pequeno demais para ele também. | O curioso é que, no fim, foi Helena quem encontrou uma espécie de descanso. Cuidar de Miguel deu forma ao excesso; deu contorno ao que antes transbordava. | Eles não se curaram no sentido clássico da palavra, mas aprenderam a existir um no outro. A arte os ensinou a nomear o indizível. O amor, a permanecer mesmo quando não havia resposta. | Maria Tereza, uma das netas, é quem escreve essa história. A história de amor mais linda que ela já viu. | Em um mundo onde ninguém permanece, ela agradece por ter um exemplo de que o amor vale a pena — mesmo quando parece difícil. Após tudo o que viu, Maria Tereza sabe: não dá para desistir do amor. |
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| | | | | ENQUETE DO THE STORIES |  | (Imagem: Betty Blue) |
| Intensidade aproxima ou afasta? | | RESULTADO DA ÚLTIMA ENQUETE 56,48% de vocês (257 pessoas) disseram que o amor verdadeiro os faz mudar seus planos. Abaixo, uma resposta de destaque por opção: → (Mudar seus planos.) “Quando tu encontra alguém, tu já não é mais singular: torna-se plural. Já não é mais ‘eu’, mas sim um ‘nós’. Então, o plano da viagem dos sonhos sozinho se tornou um pacote de viagens a dois, para mais de um destino, visando a satisfação mútua. As rotinas se misturam, os hábitos se entrelaçam e tudo se torna compartilhado. Existem coisas e princípios que tu pode manter apenas seus; porém, em sua maioria, as coisas precisam mudar. Amar é saber que, para ter paz, às vezes é preciso ceder a razão. Portanto, às vezes, é melhor mudar seus planos e aproveitar uma experiência que pode ser ainda melhor com seu parceiro(a).” → (Manter quem você é) “Em minha humilde concepção, o amor te faz manter quem você é, mas com alguns pequenos ajustes das duas partes. Cabe salientar que o grande problema dos dias de hoje é que as pessoas não têm paciência pra fazer os ajustes que faltam ser feitos. Mas seguimos caminhando e cantando, esperando que esse amor do dia possa chegar e que, quando ele chegar, estejamos preparados para vivê-lo.” |
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| Ostra feliz não faz pérola |  | (Imagem: Pinterest) |
| Ostras são moluscos, animais sem esqueleto, macias, que representam as delícias dos gastrônomos. Podem ser comidas cruas, com pingos de limão, paellas, sopas. Sem defesas – são animais mansos -, seriam uma presa fácil dos predadores. Para que isso não acontecesse, a sua sabedoria as ensinou a fazer casas, conchas duras, dentro das quais vivem. | Pois havia num fundo de mar uma colônia de ostras, muitas ostras. Eram ostras felizes. Sabia-se que eram ostras felizes porque de dentro de suas conchas saía uma delicada melodia, música aquática, como se fosse um canto gregoriano, todas cantando a mesma música. Com uma exceção: de uma ostra solitária que fazia um solo solitário. | Diferente da alegre música aquática, ela cantava um canto muito triste. As ostras felizes se riam dela e diziam: “Ela não sai da sua depressão…”. Não era depressão. Era dor. Pois um grão de areia havia entrado dentro de sua carne e doía, doía, doía. E ela não tinha jeito de se livrar dele, do grão de areia. Mas era possível livrar-se da dor. O seu corpo sabia que, para se livrar da dor que o grão de areia lhe provocava, em virtude de suas asperezas, arestas e pontas, bastava para envolvê-lo com uma substância lisa, brilhante e redonda. Assim, enquanto cantava seu canto triste, o seu corpo fazia o trabalho – por causa da dor que o grão de areia lhe causava. | Um dia, passou por ali um pescador com o seu barco. Lançou a rede e toda a colônia de ostras, inclusive a sofredora, foi pescada. O pescador se alegrou, levou-as para casa e sua mulher fez uma deliciosa sopa de ostras. Deliciando-se com as ostras, de repente seus dentes bateram num objeto duro que estava dentro de uma ostra. Ele o tomou nos dedos e sorriu de felicidade: era uma pérola, uma linda pérola. Apenas a ostra sofredora fizera uma pérola. Ele tomou-a e deu-a de presente para a sua esposa. | Isso é verdade para as ostras. E é verdade para os seres humanos. No seu ensaio sobre o nascimento da tragédia grega a partir do espírito da música, Nietzche observou que os gregos, por oposição aos cristãos , levavam a tragédia a sério. Tragédia era tragédia. Não existia para eles, como existia para os cristãos, um céu onde a tragédia seria transformada em comédia. | Ele se perguntou então das razões por que os gregos, sendo dominados por esse sentimento trágico da vida, não sucumbiram ao pessimismo. A resposta que encontrou foi a mesma da ostra que faz uma pérola: eles não se entregaram ao pessimismo porque foram capazes de transformar a tragédia em beleza. A beleza não elimina a tragédia, mas a torna suportável. A felicidade é um dom que deve ser simplesmente gozado. Ela se basta. Mas ela não cria. Não produz pérolas. São os que sofrem que produzem a beleza, para parar de sofrer. | Esses são os artistas. Beethoven – como é possível que um homem completamente surdo, no fim da vida, tenha produzido uma obra que canta a alegria? Van Gogh, Cecília Meireles, Fernando Pessoa… | — Rubem Alves | — |
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