US$ 5 bi em transações suspeitas: o caso do Bank of America
O segundo maior banco dos Estados Unidos perdeu cerca de US$ 18 bilhões em valor de mercado na quarta-feira.
Por the news money · 16 de outubro de 2026
16 de outubro de 2026
Good morning, Brasil
O Ibovespa encerrou a quinta-feira em queda de 1,06%, aos 204.324 pontos, com investidores adotando postura de cautela antes da divulgação da nova pesquisa Datafolha. O mercado acompanha de perto os desdobramentos da disputa presidencial no segundo turno entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro.
Nos mercados, a procura por proteção (hedge) para câmbio e ações disparou no país; a Berkshire Hathaway realizou um raro aporte em tech na italiana Bending Spoons; e investidores reduziram as projeções de valuation para o IPO da Anthropic diante de uma desaceleração no crescimento da receita.
No Paper of the Day, detalhamos o escândalo envolvendo o Bank of America, multado em US$ 1,2 bilhão pelas autoridades americanas por falhas graves de compliance e omissão intencional em transações suspeitas.
US$ 5 bi em transações suspeitas: o caso do Bank of America
O segundo maior banco dos Estados Unidos perdeu cerca de US$ 18 bilhões em valor de mercado na quarta-feira (14). As ações do Bank of America caíram 4,76%, cotadas a US$ 51,39, um dia após o Tesouro americano anunciar um pacote de penalidades históricas. O conjunto inclui a maior multa já aplicada pelo OCC (regulador bancário do país) e a terceira maior da história do próprio Tesouro.
O pacote soma pouco mais de US$ 1,2 bilhão e envolve três órgãos federais. A FinCEN, unidade de combate a crimes financeiros, aplicou uma penalidade de US$ 1,2 bilhão, montante que já engloba os US$ 750 milhões cobrados pelo OCC. Em paralelo, o OFAC, responsável pelas sanções econômicas, fechou um acordo de US$ 11,6 milhões por violações aparentes de programas de sanções, como os contra Irã, Rússia, narcotráfico e terrorismo.
Para além das cifras, o Tesouro destacou a gravidade da conduta: o BofA deixou de reportar dentro do prazo mais de US$ 5 bilhões em transações suspeitas, sendo mais de US$ 1 bilhão vinculado a redes chinesas de lavagem de dinheiro e a fluxos ilícitos na fronteira sudoeste americana. O banco admitiu ter violado a lei de forma deliberada.
(Imagem: Michael Nagle—Bloomberg/Getty Images)
No centro do escândalo estava o Event Processor, sistema de monitoramento criado em 2010 para sinalizar movimentações atípicas a uma equipe de compliance que nunca dava conta da demanda. Os parâmetros que disparavam os alertas eram altos demais. Quando pressionado pelos reguladores a reduzir os gatilhos e revisar o histórico, o banco constatou que teriam sido emitidos quase 8.900 relatórios adicionais de atividade suspeita. A fila de pendências escalou para cerca de 200 mil casos, forçando a instituição a contratar milhares de analistas em uma tentativa tardia de conter o gargalo.
Um dos casos citados ilustra a dinâmica: o Cliente A, um marketplace de veículos sinistrados, acumulou mais de 125 apurações por lavagem de dinheiro, cerca de 90% delas associadas a fraudes. A equipe de compliance chegou a formalizar uma proposta para encerrar a conta, mas o gerente comercial defendeu a permanência do cliente alegando que ele era “grande e valioso”, gerando US$ 6 milhões em receita anual. E, até 2025, o cliente continuava processando pagamentos de terceiros dentro do banco.
Para o Tesouro, o BofA priorizou receitas e minimizou os recursos necessários para a conformidade.
O impacto direto da multa no balanço foi de US$ 0,17 por ação. Com isso, o lucro líquido ficou em US$ 6,9 bilhões (US$ 0,91 por ação), abaixo dos US$ 1,10 previstos pelo mercado, pressionado também pelo desempenho fraco da mesa de trading, destaque em trimestres anteriores. Para completar o quadro, as perdas não realizadas com títulos de renda fixa saltaram US$ 22 bilhões no trimestre, alcançando a marca de US$ 104 bilhões.
Em resumo, embora a multa represente cerca de 0,3% do valor de mercado do BofA, ela veio acompanhada de um balanço fraco, US$ 104 bilhões em perdas contábeis e a admissão de uma violação intencional da lei. Como pontuou o secretário do Tesouro, Scott Bessent: nem mesmo as maiores instituições financeiras estão acima da lei.
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