| | | | | | | Antes de existirem aplicativos de mensagens, antes dos e-mails e das chamadas de vídeo, havia as cartas, e poucas histórias mostram o peso de uma carta de amor melhor do que O Amor nos Tempos do Cólera, de Gabriel García Márquez. | Publicado em 1985, o romance acompanha Florentino Ariza e Fermina Daza, dois jovens que se apaixonam, trocam cartas apaixonadas e são separados pelo pai dela, que reprova o relacionamento. | Fermina acaba casando com outro homem. Florentino, por sua vez, espera… por cinquenta e três anos, sete meses e onze dias. | |
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| | | | | | | ENSAIO ABERTO | Dicionário das Artes |  | (Imagem: Pinterest) |
| Você já deixou de entender uma conversa sobre arte porque parecia que todo mundo estava falando outra língua? | Vernissage, site-specific, ready-made… Muitas palavras usadas no mundo das artes parecem mais complicadas do que realmente são — e, às vezes, acabam afastando justamente quem gostaria de se aproximar. | Por isso, hoje eu resolvi montar um pequeno Dicionário das Artes. | Começando por vernissage, que é o nome dado à abertura de uma exposição, geralmente destinada a convidados, à imprensa e a colecionadores. | Mas a origem da palavra é ainda mais interessante. | Ela vem do francês vernir, que significa “envernizar”. Antes de uma exposição abrir oficialmente ao público, artistas costumavam convidar algumas pessoas para acompanhar o momento em que davam a última camada de verniz às obras. |
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| O costume mudou, mas o nome ficou. E, se existe uma palavra para a abertura, também existe uma para o final… finissage. |  | (Imagem: Pinterest) |
| É o evento que marca o encerramento de uma exposição — basicamente, o oposto da vernissage. | Agora, se você entrar em uma galeria e ler que determinada obra é site-specific, isso significa que ela foi pensada especialmente para aquele lugar. | O artista considera a arquitetura, a escala, a história e o contexto do espaço. Ou seja, não é simplesmente pegar a obra, colocá-la em outro museu e esperar que ela continue significando exatamente a mesma coisa. | E, por último, uma das minhas favoritas: ready-made. É quando um artista pega um objeto comum, já existente, e o transforma em arte simplesmente ao escolhê-lo e colocá-lo em um novo contexto. | O exemplo mais famoso é A Fonte, de Marcel Duchamp. Sim, o famoso urinol. | Duchamp não esculpiu o objeto, mas escolheu um objeto cotidiano e basicamente perguntou: “Se eu, como artista, digo que isso é arte… isso passa a ser arte?” |
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| E, mais de cem anos depois, a gente ainda está discutindo a resposta. |  | (Imagem: Pinterest) |
| No fim, talvez entender arte não seja sobre conhecer todas essas palavras difíceis. | É perceber que, por trás delas, existem ideias bem mais simples — e histórias muito mais interessantes. | E, para você: qual outra palavra merece entrar no nosso Dicionário das Artes? | Com carinho, Luiza Adas. |
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| | | | | | | AUTOR | Luiza Adas | | Especialista em Teoria e Crítica de História da Arte, Luiza pesquisa, produz conteúdos e desenvolve projetos sobre artistas, museus, exposições e tudo o que envolve o universo das artes visuais. É criadora do Clube da Arte, projeto que se articula como um clube do livro, mas é focado em experiências de arte. Também fundou o @museu.do.agora, página que compartilha reflexões contemporâneas acerca da arte. |
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| | | | | | | | BASEADO EM UMA HISTÓRIA REAL | A caixa no fundo do armário |  | (Imagem: Pinterest) |
| Lívia achava que conhecia bem a avó. | Aos 90 anos, Dona Luzia ainda se lembra de coisas que a própria neta provavelmente já teria esquecido. Do cheiro da feira de Caicó. Da roupa que usou em determinado baile. Do nome do cachorro de uma vizinha da infância. | Mas havia uma história que ela nunca tinha contado — e ela estava guardada no fundo de um armário. |
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| Foi numa tarde qualquer, enquanto ajudava a organizar o quarto da avó, que Lívia encontrou uma caixa de madeira escondida debaixo de um cobertor. | Dentro, havia um maço de cartas amareladas, escritas numa caligrafia que ela não reconhecia. O português parecia estranho: correto em alguns lugares, hesitante em outros. Era como se aquelas palavras tivessem sido escritas por alguém que ainda estava aprendendo o idioma. | Dona Luzia ficou em silêncio quando viu as cartas. Depois, sorriu daquele jeito de quem voltou, por alguns segundos, para algum lugar muito distante. | Rio de Janeiro. 1958. | Luzia tinha pouco mais de vinte anos quando sua família deixou Caicó, no interior do Rio Grande do Norte, e se mudou para o Rio de Janeiro. Foi lá que, um dia, encontrou um homem perdido na rua, com um mapa nas mãos. | O nome dele era Cornelis. Holandês, estava no Brasil a trabalho por algum tempo. O que deveria ser apenas uma indicação de caminho virou uma conversa de quase uma hora, em pé, na calçada. | Depois, veio outra conversa — e outra. Até que os encontros passaram a acontecer quase todos os dias num café do bairro. | Cornelis carregava um caderno onde anotava palavras em português. Luzia corrigia a pronúncia. Ele tentava novamente; ela ria. E, entre uma palavra e outra, os dois foram inventando uma língua que não precisava de tradução.
| Vieram os passeios pelo Rio, os bailes, a orla, as tardes que pareciam durar mais do que deveriam. | Mas Cornelis não havia ido ao Brasil para ficar. No final daquele ano, antes de partir, arrancou a última página do caderninho onde aprendera português, escreveu seu endereço e a entregou para Luzia. | — Me escreva. | Ela escreveu. | Durante dois anos, o amor dos dois coube em envelopes que atravessavam o Atlântico. Cornelis escrevia sobre a Holanda, o inverno e as tulipas. Luzia respondia falando do calor, da família e da saudade de Caicó. | Até que, em 1960, chegou uma carta diferente. | Cornelis havia conhecido alguém. | Luzia leu tudo três vezes, dobrou a carta, colocou-a junto das outras dentro da caixa de madeira e não respondeu. | A vida continuou. A família voltou para o Rio Grande do Norte. Luzia conheceu outra pessoa, casou-se, teve filhos e construiu uma vida feliz ao lado do homem que Lívia conheceria simplesmente como avô. |
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| Cornelis virou uma história que ninguém sabia que existia. | O avô de Lívia morreu em 2017. A caixa continuou no fundo do armário. | | Dona Luzia amou o homem com quem construiu sua vida. Foi feliz ao lado dele. E também, quando tinha pouco mais de vinte anos, esperou durante dois anos por envelopes que atravessavam o oceano. | Uma coisa não apaga a outra. | Nossos avós tiveram vidas antes de existirmos para testemunhá-las. Foram jovens. Dançaram em bailes. Apaixonaram-se por pessoas com quem não ficaram. Guardaram cartas. | Lívia entrou naquele quarto achando que conhecia Dona Luzia. Saiu entendendo que conhecia apenas algumas das mulheres que sua avó havia sido. |
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| | | | | | | EXTRA | “Há muito tempo, sim, não te escrevo. Ficaram velhas todas as notícias. Eu mesmo envelhecí: olha em relevo estes sinais em mim, não das carícias (tão leves) que fazias no meu rosto: são golpes, são espinhos, são lembranças da vida a teu menino, que a sol-posto perde a sabedoria das crianças. | A falta que me fazes não é tanto à hora de dormir, quando dizias "Deus te abençoe", e a noite abria em sonho. | É quando, ao despertar, revejo a um canto a noite acumulada de meus dias, e sinto que estou vivo, e que não sonho.” | — Carlos Drummond de Andrade |
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| | | | | | | EM CARTAZ | Nos cinemas ou no conforto do seu sofá |  | (Imagem: Divulgação) |
| Enquanto a Tropicália, os Novos Baianos e a contracultura dos anos 1970 reinventavam a identidade do Brasil sob a sombra da ditadura militar, os filhos dessa geração testemunhavam tudo pelo buraco da fechadura. | O documentário Nem Tudo É Paz E Amor resgata essa atmosfera fervilhante para examinar, sem filtros, a beleza, as rupturas e o caos de crescer no epicentro de uma liberdade sem limites. | Com um olhar afiado que exalta o Cinema de Invenção, a obra utiliza a música e a ironia para fugir da simples nostalgia histórica. O longa chega aos cinemas em 27 de agosto com uma pergunta provocativa: quanta coragem é necessária para encarar as marcas e os privilégios de ter sido criado no meio de uma revolução artística? | Confira os principais lançamentos da semana: | Nosso Segredo — 27 de agosto, nos cinemas Ponto Sem Retorno — 27 de agosto, nos cinemas Um Olhar Inquieto: O Cinema De Jorge Bodanzky — 27 de agosto, nos cinemas Homem que Sussurra — 28 de agosto, na Netflix
| E você, assistiu a qual dos lançamentos que mencionamos na última edição? | |
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| | | | | | | | RODAPÉ | the news cult | Seu hub abrangente de curadoria cultural e comportamento. Uma lente para entender o mundo e as conexões humanas através do amor, da arte, do cinema, da literatura, das tendências de lifestyle e da vida digital. | Sempre aos domingos de manhã, às 10:00. |
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